Cinco anos depois, Covid deixa rastro de adoecimento mental e ainda desafia saúde pública em BH

Cinco anos depois, Covid deixa rastro de adoecimento mental e ainda desafia saúde pública em BH
Covid deixou como “herança” o adoecimento mental para uma camada da população Foto: Carl DE SOUZA / AFP
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O número de pacientes com problemas de saúde mental quase triplicou na capital mineira após o período de crise sanitária

Por Gabriel Rezende e Rayllan Oliveira O Tempo

Cinco anos se passaram desde que a primeira morte por Covid-19 foi confirmada em Belo Horizonte. A idosa Marlene Eunice Vanucci, de 82 anos, faleceu, vítima da doença, no dia 29 de março de 2020. Ela foi a primeira das mais de 8.000 vítimas do vírus que chegou à capital mineira de forma "silenciosa" e implicou em novas formas de vivência. As perdas de pessoas próximas e o isolamento social forçado durante o período pandêmico para conter o aumento de casos afetaram a forma de as pessoas se relacionarem  e deixaram como “herança” o adoecimento mental para uma camada da população: em BH, o número de pacientes com esse quadro de saúde quase triplicou.

Conforme levantamento da Secretaria Municipal de Saúde, foram 240.555 em 2024, número 187% maior que os 83.620 de 2019, ano que antecedeu o período de crise na saúde pública. "Posso dizer que convivo com as consequências da Covid desde 18 de maio de 2021, que foi o dia que o meu pai teve os primeiros sintomas. Além da saudade dele, tenho compulsão alimentar e preciso de acompanhamento com psicólogo. Foi tudo muito traumático", expõe a analista de recursos humanos Lidyane Lima Silva, de 39 anos.

O pai de Lidyane morreu no dia 24 de junho, cinco semanas após ser hospitalizado. Aos 68 anos, ele não resistiu ao avanço da doença, que se intensificou devido às comorbidades. “Passei todo esse período trancada com ele em um quarto branco. Ver ele perder essa luta, me doeu muito. Ele tinha falta de ar e aquilo era desesperador. Isso era ainda pior quando as pessoas que não acreditavam, zombavam imitando falta de ar. Elas só não consideravam que estavam imitando o sofrimento do meu pai", desabafa. Além de Lidyane, a mãe dela também passou a conviver com sequelas do período pandêmico. “Foram 47 anos casados. Hoje, o consumo de álcool da minha mãe aumentou muito”, conta.

A primeira foto mostra o Lidyane Lima Silva ao lado do seu pai; a segunda imagem mostra o último encontro entre os pais de Lidyane - Foto: Arquivo Pessoal

O levantamento da secretaria de saúde de BH considera os atendimentos de crianças, adolescentes e adultos nos 16 equipamentos públicos de atenção à saúde mental na capital mineira, além dos acompanhamentos nos 153 centros de saúde. Em 2025, segundo a pasta, foram 52.079 atendimentos em toda a rede até o dia 19 de março — a média é de 667 por dia, ou seja, pelo menos 27 por hora. Os números compreendem atendimentos de pacientes em sofrimento psíquico e/ou com transtorno mental severo e persistente e pessoas em uso prejudicial de álcool e outras drogas.

"Essa se tornou uma demanda crescente na rede, exigindo repensar as formas de financiamento para poder garantir esse suporte. O fortalecimento desses serviços é necessário não apenas para cuidar dos pacientes, mas para atuar de forma preventiva", expõe o secretário municipal de saúde de Belo Horizonte, Danilo Borges Matias. Para a psicóloga e conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), Cristiane Nogueira, o adoecimento mental coletivo tem como uma das causas as incertezas sociais e econômicas trazidas pela pandemia. “A insegurança ainda persiste, e a ansiedade se tornou a protagonista do nosso período de vida atual”, avalia.

A incerteza econômica

Em Minas Gerais, conforme a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), 3.500 empreendimentos de alimentação fora do lar haviam fechado as portas nos primeiros dez meses de crise sanitária. O número de postos de trabalho na área caiu 58%, passando de cerca de 72 mil para 30 mil. “De 26 colaboradores, passamos a ter 12”, conta o empresário Saulo Vidigal, de 33, sócio-proprietário do Saboreando Restaurante, no bairro Padre Eustáquio, na região Noroeste da capital. O estabelecimento, criado pelo pai dele, há 34 anos, que operava com o modelo self-service, passou a atender via delivery. “O período foi conturbado. Estávamos com boas perspectivas de crescimento, mas tivemos que reduzir a operação”, lembra.

O comércio precisou ser fechado durante a pandemia para conter a disseminação do vírus da Covid - Foto: Alex de Jesus / O TEMPO

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) apontou que, no primeiro ano da pandemia, a taxa média de desocupação foi recorde em 20 Estados do Brasil. Em Minas Gerais, a taxa de desocupação saltou de 10,1% em 2019 para 12,5%, em 2020. “Perdi minha fonte de renda e fui procurar abrigo público. Mas, pouco tempo depois, acabei indo direto para as ruas”, recorda o bibliotecário Jorge Comper Santana, de 32 anos.

A rua passou a ser o abrigo do bibliotecário que havia se mudado do Espírito Santo para a capital mineira. Ele permaneceu em situação de rua por cerca de dois anos e conseguiu retomar à antiga rotina em 2022, com apoio da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte e de programas sociais. “Conheço muita gente que foi morar na rua por causa da pandemia. Pessoas desesperadas, sem renda e sem saber o que fazer”, relembra.

Mensagens de apoio foram espalhadas por Belo Horizonte durante a pandemia da Covid-19 - Foto: Ramon Bitencourt/ O TEMPO

Segundo a psicóloga Cristiane Nogueira, o medo da morte, a incerteza econômica e o distanciamento nas relações, necessário pelo isolamento social, trouxeram impactos psíquicos diversos à sociedade. "A fragilidade do corpo afetou também a alma. Por muito tempo, a nossa lógica era baseada apenas na racionalidade. Não nos preocupávamos com a saúde mental. E a pandemia expôs o quanto somos vulneráveis e a necessidade do zelo pelas emoções", destaca.

A especialista considera que, mesmo com a retomada “da normalidade”, a sociedade abandonou hábitos considerados necessários para a existência humana. Nogueira avalia que mesmo com o fim do isolamento social, que possibilitou o retorno dos encontros em grupos, muitas pessoas optam em se manter sozinhas, evitando vínculos familiares, de amizade, relacionamento, entre outros. "Por um tempo, não podemos escolher entre conviver ou não. Para sobreviver, a gente não podia conviver. Agora não. As pessoas estão escolhendo não se encontrar e isso está custando muito caro", alerta.

A Pandemia da Covid-19 em Belo Horizonte

A chegada de um vírus desconhecido

Belo Horizonte decretou estado de emergência em saúde pública em razão da pandemia de coronavírus no dia 17 de março de 2020 — doze dias antes da primeira morte ser confirmada na cidade. Na ocasião, a capital mineira, que tinha um caso confirmado da doença, também anunciou uma série de medidas para conter o avanço do vírus, como a interrupção dos serviços considerados não essenciais e o uso obrigatório de máscaras. As medidas entraram em vigor no dia 20 de março. Um mês depois, quando havia confirmado 467 casos e oito mortes, a cidade decretou estado de calamidade pública.

"Aquele foi um momento muito desafiador. Diante de uma doença desconhecida, tivemos que tomar medidas efetivas com base em alguns conhecimentos científicos que tínhamos à época. Era tomar uma decisão tentando salvar o maior número de vidas e comprometendo o mínimo possível a rotina das pessoas", lembra o médico infectologista Estevão Urbano, que integrou o Comitê de Enfrentamento à Covid-19 de Belo Horizonte, instalado logo no começo do período pandêmico.

O técnico de enfermagem Eduardo Martins (ao fundo) ao lado dos colegas de trabalho Sydnei e Carlos - Foto: Arquivo Pessoal

Desafios que também fizeram parte da rotina do técnico de enfermagem Eduardo Martins, de 31 anos, que esteve na linha de frente do enfrentamento à doença. Durante a pandemia, ele atuou no Hospital Eduardo de Menezes — principal referência no atendimento de pacientes com Covid-19 na rede pública de saúde de Minas Gerais. “Tinha muito medo de levar o vírus para casa. Sem contar o preconceito dos vizinhos. Achavam que a gente ia espalhar a doença por trabalhar na saúde. Foi um desafio enorme. A doença era desconhecida. Víamos colegas morrendo, era um pânico total”, lembra Eduardo, pai de um menino de 1 ano, à época. 

Belo Horizonte abriu Centros Especializados em Covid-19, os Cecovids, para atender pacientes com diagnóstico da doença - Foto: Flavio Tavares / O TEMPO

O abre e fecha para conter o vírus

Cerca de oitenta dias após determinar o fechamento de parte da cidade, Belo Horizonte deu início ao processo de afrouxamento do isolamento social. Pressionada pelo comércio, a prefeitura permitiu o funcionamento de salões de beleza e varejo de imóveis a partir do dia 25 de maio. A fase 2, realizada em 8 de junho, contou com a reabertura de lojas de artigos esportivos, bebidas, floriculturas, instrumentos musicais e tabacarias. No entanto, a capital recuou um mês depois, permitindo o funcionamento apenas do comércio considerado essencial.

"Aquele foi um momento de insegurança generalizada, até pelo comportamento da doença. Acredito que as medidas adotadas foram as melhores. Em algumas situações, planejamos fazer algo, mas tivemos que cancelar porque todas as nossas decisões tinham como base o lado técnico. Belo Horizonte foi uma ilha no Brasil, neste sentido", avalia o secretário municipal de saúde. À época, o titular da pasta atuava como superintendente do Complexo Hospitalar Odilon Behrens. A unidade, na região Noroeste capital, mantém prontos-socorros e ambulatórios onde a população é atendida imediatamente de acordo com a capacidade.

Pontos tradicionais em Belo Horizonte ficaram vazios por causa do isolamento social forçando pela pandemia - Foto: Alex de Jesus / O TEMPO

Para Danilo, o momento de crise sanitária foi um dos principais desafios da sua carreira. Como gestor de uma unidade com mais de três mil funcionários na linha de frente do enfrentamento ao vírus, se sentiu, por vezes, pressionado "pelo desconhecido", mas encorajado pela responsabilidade. "Compartilhei isso com pessoas próximas, mas não tive medo e vontade de desistir. Nessa época, eu era recém-casado e minha esposa ficou grávida. Ou seja, se tornou do grupo de risco por causa da fragilidade da maternidade e eu tinha uma rotina hospitalar. Contei com muito apoio, pois tinha o sentimento que precisava cumprir um dever", expõe.

Sentimento que, por vezes, também acompanhou o médico infectologista Estevão Urbano. “Nunca pensamos em luta perdida, mas foram dois anos de muita preocupação. Era algo frequente e extremamente desgastante. A gente acompanhava os casos de pessoas morrendo sem conseguir ter acesso aos serviços de saúde, como foi em Manaus, por exemplo, e eles nos assustavam. Isso nos preocupou muito, não queríamos que essa situação pudesse se repetir em Belo Horizonte”, revela.

Velórios em Belo Horizonte ocorreram com restrição de público para evitar a disseminação do vírus - Foto: Alexandre Mota / O TEMPO

A vacina como esperança

A vacinação na capital mineira iniciou no dia 19 de janeiro de 2021, dois meses antes do início do pior período da pandemia na cidade. Em março daquele ano, 93,4% dos leitos de UTI destinados para pacientes com Covid-19 estavam ocupados. Este havia sido o recorde do indicador, que considerava as unidades da rede SUS e suplementar. “A imunização mudou a rota da doença, os indicadores só estão baixos por isso”, afirma o secretário municipal de saúde.

Os imunizantes foram disponibilizados, inicialmente, para profissionais da saúde que estavam trabalhando na linha de frente do enfrentamento à doença, em hospitais e serviços de urgência. A vacinação foi ampliada em grupos prioritários, considerando idosos, gestantes e puérperas, imunocomprometidos, entre outros. Em um ano, foram mais de 4,9 milhões de doses aplicadas. O avanço da imunização refletiu em uma queda de 22% no número de casos confirmados na cidade. Conforme o boletim epidemiológico, foram 204.352 em 2021, primeiro ano com a vacina, e 158.716, no ano seguinte.

Vacinação contra a Covid-19 em Belo Horizonte teve início em janeiro de 2021 - Foto: Ramon Bitencourt / O TEMPO 

“Apesar dessa queda, perdemos muito tempo com o início da vacinação no Brasil. Houve uma barreira muito grande e nós perdemos dias e vidas até ampliar o acesso”, lembra o infectologista Estevão Urbano. Para o médico, que esteve no Comitê de enfrentamento à Covid de Belo Horizonte, alguns movimentos da sociedade, que defendiam, por exemplo, a imunização de rebanho, dificultaram a preservação de vidas. “Se estivéssemos esperando por isso, a gente teria perdido cerca de 4 milhões de pessoas. Com a vacinação, mesmo tendo sido atrasada, foram 800 mil”, acrescenta.

Em 2024, o Ministério da Saúde incluiu a imunização contra a Covid-19 no Calendário Nacional de Vacinação. Com a determinação, a vacinação passou a priorizar crianças de 6 meses a 5 anos e os grupos com maior risco de desenvolver as formas graves da doença — tais como idosos, imunocomprometidos, gestantes e puérperas, entre outros. A meta de cobertura vacinal da pasta é de 95% para cada um destes grupos. Conforme a Secretaria de Saúde de Belo Horizonte, apenas 12,6% das gestantes, 30,3% dos idosos e 38,1% das crianças na faixa etária determinada receberam a primeira dose da vacina na capital no ano passado. 

"Infelizmente, a vacinação não está como o planejado. A gente atribui isso a um sentimento de confirmação coletiva de que o pior já passou. Só que precisamos melhorar a cobertura vacinal para evitar uma nova variante, outros casos e até mesmo um comportamento mais agressivo da doença. Precisamos lembrar que a vacina não é fundamental só em períodos de crise, ela é necessária para que outros momentos de crise possam ocorrer", alerta o secretário.