Colgate CleanMint: creme dental interditado pode ser vendido? Veja o que diz a Anvisa

O Procon-SP notificou a Colgate para esclarecer quanto às providências que a empresa está adotando em função da suspensão
O Tempo Por Simon Nascimento
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que os cremes dentais da Colgate, da linha Total - Clean Mint, não devem ser comercializados nos supermercados e demais estabelecimentos comerciais. A orientação foi feita após o órgão interditar por 90 dias o produto em função do registro de lesões bucais, reações alérgicas e inflamatórias em consumidores.
De acordo com a Anvisa, não há, apesar da interdição, determinação de recolhimento. "Mas o produto deve ficar separado e não deve ser exposto ao consumo ou uso", informou a Agência. A Anvisa frisou ainda que a interdição é cautelar, preventiva e temporária.
O objetivo da medida, garante o órgão, é proteger a saúde da população e permanece vigente enquanto são realizados testes, provas, análises ou outras providências requeridas para a investigação e conclusão do caso. "Portanto, o produto não deve ser consumido ou comercializado até que seja comprovada a sua segurança", completou.
Aos consumidores, a Anvisa recomendou a suspensão do uso da linha Clean Mint até o término das investigações. "Para saber se o produto que está em sua residência está sujeito à interdição, orienta-se que caso o consumidor tenha o produto com a embalagem secundária (cartucho de cartolina) procure no rótulo o número do processo, na Anvisa, que é 25351.159395/2024-82, caso tenha somente a bisnaga, verifique se na composição tem a substância fluoreto estanoso", orientou.
Em nota, a Colgate informou que recorreu à Anvisa e conseguiu suspender a interdição - fato não confirmado pela Agência. A empresa ainda afirmou que segue tomando todas as medidas cabíveis para demonstrar a segurança do produto. "É importante reafirmar que o produto não oferece riscos à saúde, mas algumas pessoas podem apresentar sensibilidade a certos ingredientes - como fluoreto de estanho, corantes ou sabores”, disse a companhia por meio de nota.
Procon pede esclarecimentos
O Procon-SP notificou a Colgate para esclarecer quanto às providências que a empresa está adotando em função da suspensão. A entidade pede que a empresa esclareça, dentre outros pontos: como o consumidor pode identificar os produtos interditados, quais os lotes envolvidos e quais as orientações prévias para os consumidores que tenham sido impactados ou que possuam produtos dos lotes interditados sobre como devem proceder, além de outras providências relevantes em função da determinação da Anvisa.
O Procon-SP deu à Colgate o prazo de 24 horas para enviar as respostas, inclusive com imagens e até uma unidade (vazia) das embalagens do produto “Colgate Clean Mint” para análise dos especialistas, “já que também aspectos quanto à formulação e sua respectiva divulgação e publicidade deverão ser avaliados”, diz o Procon-SP.
Entenda o caso
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditou nesta quinta-feira (27) a linha de cremes dentais da Colgate ‘Clean Mint’ após reações que geraram lesões bucais em consumidores. A decisão foi publicada nesta quinta-feira (27), no Diário Oficial da União (DOU).
De acordo com a Anvisa, que estava monitorando a situação, a interdição foi implementada a partir do “número significativo de relatos de eventos adversos associados ao uso do produto” até que seja comprovado se os cremes dentais são nocivos, ou não, à saúde. O órgão, a depender da avaliação, pode determinar a suspensão da fabricação e venda do produto.
As reações ocorreram após uma mudança na fórmula de cremes dentais da Colgate. A alteração gerou críticas de consumidores, que relataram reações alérgicas e inflamatórias após o uso do produto na higiene bucal. O problema foi registrado nas pastas da linha ‘Total 12 - Clean Mint’ que passaram a ser chamadas de ‘Prevenção Ativa’.
Na plataforma ReclameAqui, a empresa recebeu mais de mil queixas sobre alergias relacionadas ao uso. O processo de alteração na formulação dos cremes dentais foi realizado no final de 2024, com lançamento em novembro. À época, a Colgate afirmou que tratava-se da ‘melhor fórmula da história para prevenção de doenças bucais’. “A fórmula superior de Colgate Total, como nenhuma outra, destroi as bactérias e cria uma poderosa barreira de proteção por até 24 horas, e previne que elas voltem”, diz a empresa, em vídeo publicitário.
A principal alteração se deu na troca do fluoreto de sódio para o fluoreto de estanho - composto químico que consiste na combinação do estanho com íons de flúor, e tem propriedades antimicrobianas. De acordo com a Anvisa, os registros enviados por consumidores foram classificados como “eventos adversos relacionados ao uso de cremes dentais da marca Colgate que, recentemente, passaram por mudanças em sua formulação”.
Os principais sintomas relatados incluem inchaço nas amígdalas, lábios e na mucosa oral, acompanhados de sensação de queimação, ardência e sensibilidade nas gengivas, presença de aftas e vermelhidão nos lábios. A advogada e influenciadora Luiza Guimarães foi uma das pessoas com problemas após o uso do creme dental. Ela notou ferimentos na boca, que só começaram a cessar quando deixou de usar o produto.
“E o pior é que você nunca vai imaginar que é uma pasta de dente que está te dando alergia, principalmente porque é uma que a gente sempre usa, usou a vida inteira”, disse ela, em storie publicado no perfil @ocasaldebh, nesta segunda-feira (24), para mais de 1 milhão de seguidores. “Quando eu ia escovar dente me dava até vontade de chorar e é a pasta de dente, pensa bem. Que absurdo!”, criticou a advogada ao mostrar feridas na língua e na gengiva.
Quem também passou por problemas foi o estudante Pedro Maciel, de 25 anos. Em janeiro, ele observou o surgimento de dezenas de aftas na gengiva, nos lábios, além de ferimentos na língua. “Eu nunca tive tantas aftas na boca, foram mais de 50, sem nenhum exagero, e várias ao mesmo tempo. Isso durou quase um mês, fui em quatro médicos e nenhum soube dar um diagnóstico, suspeitaram de estomatite e candidíase e me passaram remédios para tratar os sintomas”, contou ele que deixou de fazer o uso do creme dental.
Pedro relatou ainda que o incômodo o impediu de se alimentar corretamente por quase uma semana, em função das dores e lesões na boca. “Tudo que eu comia era gelado, um sorvete, açaí e até mesmo uma sopa eu não aguentava comer quente”, completou. Procurada, a Colgate confirmou que a nova fórmula da Colgate Total possui o fluoreto de estanho.
"Um ingrediente seguro, eficaz e amplamente usado em cremes dentais em todo o mundo. A nova fórmula é o resultado de mais de uma década de pesquisa e desenvolvimento e testes extensivos com consumidores, inclusive no Brasil, para proporcionar às pessoas uma excelente saúde bucal. Nossos produtos e seus ingredientes passam por testes rigorosos e são aprovados por agências regulatórias em todo o mundo. No entanto, uma pequena minoria das pessoas pode apresentar sensibilidade a determinados ingredientes – como fluoreto de estanho, corantes ou sabores", disse a empresa.
A Colgate recomendou que consumidores afetados com alguma reação devem interromper o uso para alívio dos sintomas. "Nossa equipe monitora atentamente esses tipos de relatos e acompanha cada situação individualmente. Para consumidores com dúvidas, contamos com um canal de atendimento por meio do 0800 703 7722", reiterou a nota.
A reportagem também procurou o Conselho Federal de Odontologia (CFO) que, em nota, afirmou que não recebeu reclamações relacionadas ao uso do produto. "O CFO está aguardando informações da empresa fabricante para que possa se manifestar. O Conselho reforça o compromisso com a proteção integral da saúde bucal da população", disse.
Comentários do Facebook