Em média, 10 pessoas idosas são abandonadas por mês em Juiz de Fora

Instituições de acolhimento aparecem como alternativa de familiares contra o abandono de idosos
Tribuna Por Pâmela Costa
Aos 89 anos, Maria da Conceição sofreu uma queda que resultou em fratura na mão e na perna. Até então, ela morava sozinha, em uma casa que conquistou por meio do trabalho em uma fábrica de macarrão e como doméstica. Foi uma vizinha quem a encontrou caída e entrou em contato com a assistência social, que realizou o acompanhamento e encaminhou a mulher para um abrigo de longa permanência para idosos.
Em uma cidade como Juiz de Fora, aproximadamente dez pessoas idosas são abandonadas por mês, segundo dados levantados entre o período de setembro de 2023 a outubro de 2024, pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) da Secretaria de Assistência Social. Neste cenário, instituições como o Abrigo Santa Helena oferecem acolhimento e cuidados especializados para idosos com mobilidade reduzida, pessoas sem familiares vivos ou com parentes que não têm condições de cuidar de idosos que exigem assistência 24 horas – uma alternativa que busca, muitas vezes, driblar o abandono.
Faz cinco anos que Maria vive no Abrigo Santa Helena, na Região Sudeste de Juiz de Fora. Hoje, aos 94, com cabelos brancos, sorriso no rosto, olhos profundos e cadeirante, ela é a matriarca da instituição, e considera os outros 119 idosos que residem ali — todos mais novos que ela — como os filhos que nunca teve. Viúva ha mais de trinta anos, ela conta que viveu apenas 28 anos casada, uma parcela pequena perto dos anos que já se passaram, e nada próximo da quantidade de tempo que queria estar ao lado do marido – que ela chama carinhosamente de “docinho de coco”. Todos os parentes de Maria já se foram.
É o que ela conta quando diz que acabou ficando sozinha. Entretanto, segundo dados do Abrigo Santa Helena, os casos de idosos que estão ali, mas não possuem família, são minoria. Em números, essa realidade é vivida por 40 pessoas dali, enquanto a maior parte dos idosos – 80 deles – tem grupo familiar, de amigos e conhecidos.
Acolhimento institucional difere de descaso ou violência
Os dados da PJF relativos ao atendimento de pessoas idosas evidenciam uma realidade de 182 idosos atendidos anualmente, sendo a maior parte deles vítima de negligência ou abandono. O restante é composto por 62 pessoas idosas que foram vítimas de violência intrafamiliar – como abusos físicos, psicológicos e sexuais. Entre as vítimas, as mulheres são maioria, o que correspondendo a 70,67% desses idosos. Há, também, aqueles idosos que compõem a população em situação de rua e que, em decorrência disso, são assistidos por outros órgãos, como o Centro Pop. Embora parte deles possa ser encaminhada para as instituições conveniadas com a Prefeitura, o acolhimento institucional difere do que seria essa realidade de descaso ou violência.
É o que pondera o doutor em antropologia social, Oswaldo Zampiroli, que pesquisou em sua tese de doutorado idosas em instituições de cuidado. Segundo ele, diferente do que imaginava, que era um alto número de abandono, as situações são mais ambivalentes do que a principio se parece, ao menos, dentro desses locais. “Por que que o espaço doméstico é considerado o espaço ideal? Então você está dentro de casa e não está abandonado, necessariamente? Às vezes está dentro de casa e está, sim, em abandono. Ou ainda está com solidão porque a família não tem tempo, a família não quer”, ele aponta.
O pesquisador também debate como o cenário é mais complexo, e se distancia de possíveis idealizações sobre a velhice. “Às vezes trata-se de pessoa muito difícil, que então construiu várias inimizades dentro núcleo familiar. Aí, vem o envelhecimento, e este idoso se torna um corpo que precisa de manutenção, precisa de um cuidado intensivo e cotidiano. Mas os familiares ali não estão dispostos”, aborda Zampiroli ao questionar o ambiente institucional para além do senso comum.
O Abrigo Santa Helena, como explicado pela diretora Myrian Lopardi, vem sendo a procura de pessoas que muitas vezes não tem como cuidar dos seus parentes idosos. “A gente vê uma mudança do perfil de quem procura a instituição. Antes, as mulheres acabavam sendo quem cuidava dos idosos, inclusive os doentes. Agora, muitas estão no mercado de trabalho, então a família prefere trazê-los para cá, onde tem cuidados diários, atividades, e uma rede para poder prestar as mais variadas formas de assistência”. Mais da metade dos idosos internos da instituição possui algum tipo de demência. Apenas 15 deles estão cognitivamente orientados. No que tange ao nível de dependência, apenas sete são qualificados como hábeis para realizar atividades diárias, 75 precisam de auxilio para realizá-las, e 38 possuem dependência total.
Idosos em abrigos se mantêm com menos de um salário minimo
(Foto: Leonardo Costa)
O casal Glória, 77 anos, e José, 70, estava sentado lado a lado em um banco quando a reportagem foi até eles. Eles contam que se conheceram em um terreiro de Candomblé, no Rio de Janeiro, há mais de 50 anos, e desde então nunca ficaram separados. Faz um ano que o neto os colocou ali, juntos. Hoje a mulher tem demência, e o homem, ainda lúcido, apresenta uma leve dificuldade na fala. Gloria é sorridente, carismática e carinhosa, e José a acompanha. No abrigo, o que mais gostam de fazer é caminhar – juntos – pelos gramados e paisagens do local. Eles tinham uma casa, conforme ela conta, mas ficou com a família. Agora, são mantidos ali com o dinheiro da aposentadoria: 70% do salário vai para os gastos do abrigo, o restante fica com a família, caso seja necessário comprar remédios.
Na instituição, 89 idosos recebem apenas um salário mínimo, e destinam a mesma porcentagem que Glória e José à casa . Caberia à família providenciar itens como remédios e cigarros, mas conforme conta a presidente do local, nem sempre isso é custeado pelos filhos ou netos. Ainda conforme dados da instituição, 29 idosos que residem ali recebem entre um e dois salários mínimos. No momento, dois idosos não pagam, pois ainda aguardam a curatela. Outro fator de destaque é que nove idosos recebem pensão, a maior parte é aposentado – 69 deles – e o restante depende de benefícios do governo, devido a situações de vulnerabilidade ou deficiência. As realidades dos que vivem ali são vastas, como os anos de suas vidas.
Os valores que são pagos são insuficientes diante do alto montante de gastos que o local possui. Ainda que o abrigo tenha apoio de um chamamento da Prefeitura, as doações e trabalhos voluntários- como da própria presidente- ajudam a manter o lar de idosos funcionando. O gasto total mensal chega ao valor de R$ 261.84,20. Por ano são usados mais de quatro mil prestobarbas, três mil sabonetes, cerca de mil desodorantes, shampoo, condicionadores, pomadas para assadura, lenços umedecidos, hidratantes e cremes dentais. Somente as fraldas necessárias para os idosos chegam ao montante de 146 mil unidades por ano, uma vez que quase 100 assistidos precisam do produto. Além disso, o local tem um alto índice de gastos com alimentação, além de despesas gerais para pagar os 98 funcionários.
O pesquisador Oswaldo Zampiroli destaca a necessidade de o país avançar nas políticas públicas e tratar os cuidadores como uma profissão reconhecida e não um ofício, ainda mal pago. O país deu um importante passo neste sentido nesta semana. A proposta do Governo Federal para a implementação da Política Nacional de Cuidados, que teve a relatoria do senador Paulo Paim (PT-RS), foi apresentada e aprovada na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado na última quarta (4). Na sessão, também foi aprovado o pedido de urgência para a pauta, garantindo o envio direto da proposta para apreciação no Plenário da Casa, na quinta-feira (5), com aprovação da pauta. A proposta segue, agora, para sanção presidencial. Ainda no que diz respeito às políticas públicas, Zampiroli destaca a necessidade de um recorte de classe, quando famílias mais pobres não têm condição de realizar o cuidado integral, parcela da população que, por conta disso, acaba sendo mais afetada pela velhice.
Atividades gratuitas para idosos em Juiz de Fora
Centro de Convivência da Pessoa Idosa oferece atividades variadas de segunda a sexta-feira (Foto: Divulgação/PJF)
A população idosa em Juiz de Fora que quer se manter ativa e entretida conta com uma série de atividades gratuitas promovidas pela PJF, e a maior parte delas acontece em dinâmicas em grupo. A Tribuna elencou programações, os locais e horários, confira:
O Centro de Convivência da Pessoa Idosa oferece atividades como teatro, artesanato, dança, alongamento, ginástica, aula de violão, grupo de canto, jogos de mesa e oficina de memória, de segunda a sexta-feira. Os horários de cada grupo podem variar, mas ocorre sempre entre 8h às 12h e das 13h às 17h. Os interessados devem se dirigir ao Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do bairro de referência (onde reside) para fazer o cadastro e solicitar encaminhamento para o programa.
As idosas também podem ter um espaço só delas na Casa da Mulher, na Avenida Garibaldi Campinhos, 169, no Bairro Vitorino Braga, na região Sudeste da cidade. No local, são oferecidas arteterapia intergeracional, com turmas todas as quintas, das 8h30 às 10h30 ou das 13h30 às 15h30. Há também aulas de corte e costura, yoga e ginástica.
Os idosos de 60 anos ou mais podem realizar atividades de esporte e lazer no Parque Municipal, na Rua do Contorno 8, no Bairro Nova Califórnia, na Cidade Alta. Dentre as atividades oferecidas, estão artesanato, jardinagem, cinema, uso de tecnologias, bailes e rodas de conversa. As inscrições são feitas presencialmente, na recepção do local.
Ainda no Parque Municipal, às terças e quintas são oferecidas aulas de hidroginástica em três horários: 8h30, 9h15 e 14h. Já nas quartas e sextas-feiras é a vez da natação, às 9h30 e 14h. Para aqueles que preferem explorar a conexão mente-corpo, há pilates às terças e quintas às 14h ou as quartas e sextas às 8h15 e 9h15. Às terças e quintas há, também, caminhada orientada no parque às 8h15 e 9h15.
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