Carona: saiba quando a prática é estimulada e quando se torna ilegal

Carona: saiba quando a prática é estimulada e quando se torna ilegal
Os aplicativos (ou pessoas) que cobram para a realização do transporte estão sujeitos às mesmas penalidades aplicadas ao transportador clandestino, comumente chamado de ‘pirata’, segundo a ANTT (Foto: Felipe Couri)
Receba as notícias do MCM Notícias MG no Whatsapp
Receba as notícias do MCM Notícias MG no Whatsapp
Receba as notícias do MCM Notícias MG no Whatsapp

Fiscalização nas estradas faz entrevista com motoristas e passageiros para identificar possíveis irregularidades dentro da modalidade; ANTT incentiva caronas, desde que solidárias

Por Pâmela Costa Tribuna de Minas 

O “dedão” – gesto de joinha na horizontal apontando a direção para qual se pretende ir – não é mais o único jeito de se pegar carona. Cada vez mais surgem alternativas que buscam reduzir a distância entre condutores e passageiros com destino de viagens em comum, seja por meio de grupos de carona nas redes sociais ou aplicativos.

Se a perspectiva dos viajantes é a estrada, o meio para percorrê-la tem passado por modificações que vislumbram, principalmente, a economia e a praticidade. No entanto, existem deturpações no que seria a “carona solidária” e os limites para que ela se torne clandestina.

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável por regular e fiscalizar o serviço de transporte interestadual de passageiros nas estradas, a carona compartilhada de forma solidária por pessoas que têm o mesmo destino é uma prática incentivada.

O problema, entretanto, é quando o gesto se torna um serviço que visa ao lucro. “Os aplicativos (ou pessoas) que cobram para a realização do transporte estão sujeitos às mesmas penalidades aplicadas ao transportador clandestino, comumente chamado de pirata”, explicou o órgão à reportagem.

Os “piratas” são aqueles que buscam passageiros em terminais rodoviários, paradas de ônibus ou redes sociais, “cobrando um valor a título de passagem”. Nestes casos, o flagrante da prática tida como ilegal – uma vez que visa ao lucro – pode render punições estabelecidas pela legislação.

Conheça as regras

APP CARONA 01 1200x800 1

Os aplicativos (ou pessoas) que cobram para a realização do transporte estão sujeitos às mesmas penalidades aplicadas ao transportador clandestino, comumente chamado de ‘pirata’, segundo a ANTT (Foto: Felipe Couri)

A fim de exemplificar o regimento e as nuances da modalidade é possível observar o que ocorreria em uma viagem de carro entre cinco pessoas. Ao calcular, de antemão, a quantidade de gasolina em relação aos km percorridos e o quanto ela custaria, o valor seria repartido para todas as pessoas de forma igualitária. Com isso, o dinheiro em questão seria para suprir o custo não havendo margem de lucro.

Ao contrário da legalidade deste caso, outro que não seria autorizado também pode ser identificado. Se o motorista, na hora de dar carona para as outras quatro pessoas, exigisse determinado valor, visando a tanto o pagamento da gasolina quanto uma margem (seja pequena ou elevada) de lucro, torna-se ilegal. Neste caso, o condutor se colocaria na posição de “prestador de serviço e, para tal, é necessário devida autorização prévia do Poder Público”.

Para a ANTT, a carona solidária parte do princípio, inclusive, de uma relação de proximidade entre as pessoas envolvidas. Por isso, para identificar possíveis irregulares, é feita fiscalização em pontos estratégicos das rodovias. A verificação é feita através de uma série de perguntas.

A entrevista com os ocupantes do veículo segue um protocolo que visa a checar se o transporte é feito com obtenção de lucro. Caso seja constatado que sim, a resolução da ANTT estabelece que o veículo seja apreendido por, no mínimo, 72 horas. O meio de transporte fica então retido em um pátio credenciado, conforme esclarece a agência.

“Para a liberação (do veículo) deverão ser apresentados comprovantes dos bilhetes de passagem emitidos para todos os passageiros (origem ou destino), bem como a quitação de despesas referentes à alimentação e/ou hospedagem quando for necessário”, finaliza.

Dados disponibilizados pela ANTT à Tribuna informam que, somente entre o período de janeiro a 30 de abril deste ano, foram apreendidos 50 veículos em Minas Gerais (entre carros, caminhões, vans e outros) realizando transporte interestadual irregular de passageiros.

O número é quase o dobro do verificado no mesmo período do ano passado, quando aconteceram 26 apreensões. Já em todo o ano de 2023, o estado teve 148 ocorrências neste sentido. Uma atenção a essas taxas é que elas se referem a vários tipos de veículo, não tendo recorte para a modalidade de carona com obtenção de lucro.

Aplicativos de carona não regulados

Aplicativos usados para mediar caronas, entretanto, não podem ser regulados pela ANTT. Isto porque a agência tem atuação apenas no que se refere a prestadoras de serviço de transporte interestadual de passageiros e os “apps” entrariam em uma classificação própria. Ainda sim, a obtenção de lucro, caso identificada nas estradas, estaria sujeita a sanções.

A Tribuna conversou com a Blablacar, uma empresa internacional que chegou ao Brasil como aplicativo de carona, mas se transformou em plataforma multimodal. Segundo a empresa, o lucro dos motoristas cadastrados não é o objetivo. “A modalidade de carona tem como objetivo conectar pessoas que querem viajar a condutores que vão na mesma direção. A empresa não tem como objetivo proporcionar fonte de renda extra para seus usuários.”

Por isso, de acordo com a própria Blablacar, existe um limite máximo estabelecido pela plataforma a fim de assegurar que os gastos com a carona sejam bem distribuídos e que o motorista não obtenha lucros. Somente em Juiz de Fora, são mais de 175 mil usuários ativos desde 2015. A aderência da população ao aplicativo fez com que, no primeiro trimestre deste ano, a plataforma crescesse 36% na cidade em relação ao mesmo período de 2023.

O aumento da procura pela plataforma de carona pode ser vista também em escala nacional, conforme levantamento solicitado pela Tribuna à empresa. Em 2022, a Blablacar registrou 50% de crescimento em relação a 2021, em 2023, o aumento em cada ano continuou, desta vez chegando a 40%.

Sobre as rotas em Juiz de Fora, seja de partida ou chegada, em primeiro lugar aparece o trajeto do município até Barbacena – menos de 100 quilômetros. Em seguida, aparece JF – Rio de Janeiro, distantes cerca de 185 quilômetros. E depois, Belo Horizonte, a aproximadamente 260 quilômetros.

Segundo a Blablacar, um dos diferenciais seja para curta, média ou grandes distâncias seria justamente a economia atrelada à segurança. “É possível, tanto para condutores quanto para passageiros, economizar até 75% em uma viagem intermunicipal ou interestadual”, assegura.

Do “dedão ao Blablacar”

Joana Lopes personagem carona arquivo pessoal

O hábito de Joana, que começou aos 16 anos, permanece até hoje, aos 28. Ela vai para a estrada e faz o joinha com o dedo na horizontal para os carros que trafegam ali (Foto: Arquivo pessoal)

A psicóloga clínica e redutora de danos Joana Lopes nasceu em Paula Cândido, uma pequena cidade do interior de Minas. Com menos de dez mil habitantes, de acordo com o último Censo do IBGE, no local era comum a prática de carona por dedão pelo menos até Viçosa, que fica a cerca de 20 quilômetros de distância.

A carona que remetia a praticidade e hábito entre os moradores, com o avançar do tempo, se tornou sua preferência também para ir a lugares mais distantes. “No interior, pedir carona é uma cultura para conhecidos e isso foi expandindo”, explica. Assim, essa modalidade do “dedão” virou costume para vir em Juiz de Fora e outras cidades da região. Até ultrapassar, também, fronteiras estaduais.

O hábito que começou aos 16 anos permanece até hoje, com 28. Ela vai para a estrada e faz o joinha com o dedo na horizontal para os carros que trafegam ali. Por vezes, até usa uma plaquinha em que fica evidenciada a cidade destino. Para além de aventureira, a ânsia por conhecer novas histórias de pessoas que Joana, até então, não conheceria a movimenta. O meio são as caronas nas estradas, mas o motor são as vivências.

Entre caronas em carros de desconhecidos a embarques nas boleias de caminhoneiros, ela revela que a situação – que para muitas mulheres poderia despertar inseguranças mais latentes – para ela, não se difere dos receios que já ocorrem no cotidiano.

“Eu sempre converso muito sobre isso com as pessoas que me dão carona, porque elas sempre me perguntam: você não tem medo, né? Você nem me conhece”, sua resposta, porém, aparecia como um retruque, já na ponta da língua: “E você, também não tem medo? Você nem me conhece!”, diz. Para ela, se trata também de uma faca de dois gumes, em que ambas as pessoas estão suscetíveis a riscos, mas também a tecer novas conexões.

Apesar do jeito leve de Joana, ela revela que esse “mergulho no desconhecido” requer ponderações. No caso dela, a intuição é o sentimento que a guia, inclusive recusando caronas quando sente que assim deve ser feito. Em determinada vez, um carro chegou a parar quando ela sinalizava pela BR, porém, ela não se sentiu segura e permaneceu na estrada, até a próxima oportunidade.

Gabrielle Braga, 21, estudante de Direito, tem como hábito predominante o uso de Blablacar. Natural de Viçosa, ela mora em Juiz de Fora há cerca de dois anos por causa dos estudos, contudo, durante os finais de semana, retorna para a cidade natal – o que a faz pedir carona pelo aplicativo.

Ela comenta que, já que a plataforma oferece avaliações dos condutores e verificação dos perfis, o sentimento de segurança aumenta, mas não só isso. “O preço sai bem mais em conta do que ônibus, apesar dele ser mais confortável”, aponta. Outra questão que ela indicou para a reportagem é o tempo. “O preço e o tempo do Blablacar são muito melhores, as taxas variam, mas possui uma média.”

Segundo Gabrielle, o mesmo percurso de Juiz de Fora à Viçosa, ela já viu no mínimo por R$ 40 e no máximo por R$ 60. Os preços menores e a rapidez apontadas por ela são também o motivador da popularidade dos grupos de carona. Nas redes sociais, eles reúnem milhares de seguidores e a garantia de juntar dois interesses ao mesmo destino.